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última sessão

 

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"última sessão" retrata o descaso com a cultura local, e tem como pano de fundo o fechamento dos cinemas de rua de Curitiba, um pouco da história da cidade e a história pessoal da vida do estilista que se interpõe em várias vozes sobrepostas à sua (a voz de todo mundo), contando numa narrativa não linear em coincidências e acasos. O desfile tem 2 convidadas: Marina Ferreira - estrela em vários momentos - e Maite Schneider que contribui com performance ao vivo que mostra a efemeridade do nosso desejo de consumir. Tudo mais é história.

produção e estilo: Heroína - Alexandre Linhares / jóias: Rodrigo Alarcón / concepção de beleza: Thifany F. / música: Cesar Munhoz, com texto e voz de Alexandre Linhares / sapatos: Estilo Próprio Calçados / bolsa: Linina Bolsas e Leticia Utime Acessori Moda / Assistência de produção: Thifany F. e Leticia Utime.

"No capítulo anterior, nós iniciamos uma discussão sobre a camisa-de-força e a sociedade. Continuamos à partir daí a narrativa. O ano: 1948. Não pensemos em algo retrô, nostálgico ou saudosista, apenas remetemo-nos ao clima gelado e festivo de fim de noite numa fila de cinema da rua XV de Novembro, centro de tudo em Curitiba. Nesta fila reúne-se a família curitibana em pompa, com trajes de domingo num evento social dos mais importantes e esperados desde a última publicação do correio impresso - da qual minha mãe não fazia parte ainda. Marlize tem três anos e está começando a roer unhas, hábito normal nessa idade para o desenvolvimento de uma criança. Meu pai, Alexandre, mora perto dela mas ainda não se conhecem e ele está dando dor de cabeça ao meu avô, também Alexandre, com as primeiras mentiras - normais na idade de 5. Por aqui, é nas mãos de Dalton Trevisan que a cena artística se projeta, ao lado de Poty Lazzarotto, Cândido Portinari, Di Cavalcanti e Vinícius de Moraes com a revista "Joaquim", que teria mais uma publicação no mês que vem e que depois disso ninguém mais se lembraria dela - a menos que você seja um erudito interessado, caso contrário ela terá perdido a cor - e publicações bem menos interessantes ocuparão seus rolos no próximo parque gráfico. Também em 1948 surge o jornal "Folha de Londrina", primeira publicação impressa que me deu capa, dois dias antes de alguém ter uma brilhante ideia e fazer o registro de algo que eu já vinha chamando de MEU há pelo menos dois anos. Fomos parar em Londrina e infortunamente me lembrei do Sudoeste paranaense, mas não podemos esquecer que o foco é Curitiba, mais precisamente (ou nem tão preciso assim) um número entre a Muricy e a Marechal Floriano, da Rua XV de Novembro sob o zoom de... descolorindo. Não posso deixar de parafrasear alguém, mencionando Maite Schneider e elogiando: “ela sim ofuscou a minha zoom”. Aliás, não fomos parar, chegamos. Pararemos um dia. Inevitavelmente pararemos, como tudo parará, como até o sol parará e não mais projetará nada em lugar nenhum. Nem sombras. Nem esperanças. E descolorirá. Tudo, tudo, tudo, tudo descolorindo. Essa é a última sessão. Falando em cinemas de rua, mas citando o Cine Ritz em especial, ele presenciou boa parte do meu amadurecimento cultural e formação do que hoje eu continuo tentando construir em meio a tudo que está... Tudo que está descolorido. Não foi no Ritz o cinema que eu fui pela primeira vez. Eu assisti "Os Flintstones" com minha irmã Rita no Cine Plaza, que hoje infelizmente funciona como templo de comércio da fé. Pudera, a arquibancada serve como uma luva para auditório onde tudo está descolorindo. Essa é a última sessão. As cadeiras foram esvaziando como os dentes foram caindo da minha boca e a bilheteria tendo que lutar com outras novas, surgidas fora, importadas para cá. Oh indústria, por favor, não me engula. Me consuma, mas não me engula. Eu tenho um sonho. O mesmo sonho que a Bibi Ferreira carregava quando veio à estreia do Cine Ritz, de que falamos aqui, que teve seu fim ao lado/embaixo da C&A, uma gigante do fast fashion que faz tão bem pra moda mundial, como o McDonald's contribui para a gastronomia e com a saúde pública. Hoje eu sou 3D. E o meu amor é tecnicolor. Essa é a última sessão, meu povo! Essa é a última sessão, meu irmão! Corram, corram todos, venham! Essa é a última sessão. Corram, corram todos, fujam! Essa é a última sessão. Tudo, tudo, tudo descolorindo. Utopias me nutrem e desejos secretos são o estopiam para que eu continue acreditando e fazendo aquilo que eu prometí pra Suzi. Lí na Wikipédia frase da Kátia Michelle sobre o dia que o Ritz fecha. E foi a Kátia Michelle que me deu capa, que contou que eu ando na linha e que eu costuro como acelero um carro de corrida rumo a um futuro que é meu. A eles, eles insistem em povoar minha cabeça, são pesadelos à noite, me assombram no escuro, me sussurram desaforos no ouvido e me fazem ter medo... A eles eu digo que eu não sou meu nome. E eles não são ninguém! Mais uma vez eu me pego pensando no Sudoeste quando na verdade eu queria contar o que a Kátia escreveu. A sessão de "A casa de bebês", uma co-produção americana e mexicana, não teve nenhum espectador e o cinema partiu silenciosamente. A penúltima exibição às 17 horas de domingo registrou oito espectadores. Kátia Michelle Pires "Cine Ritz teve última sessão sem telespectadores", jornal Folha de Londrina, 26 de abril de 2005. Vale lembrar que no dia 26 de abril é aniversário da minha irmã Rita, que me levou no cinema pela primeira vez. Quando não me são pesadelos, são sonhos. Não os sonhares... Não os sonhares da vida como eu converso com a minha amiga que me conduz em viagens próprias, com instrumentos que ela recebe e compartilha comigo, e colabora comigo e com o meu sonho. Ela é minha amiga, mas nós não frequentamos as mesmas festas. Eu tô falando dos sonhos que eu tenho de noite. Noutro dia, a Yara me ajudava e mantinha na minha bolsa um relógio que não cessava e que não cessará. Eu tenho um sonho e a Samambaia, minha filha, também tem um sonho. Essa coleção, essa última sessão, eu comecei a idealizar quando passei com a Thifany de ônibus pela Alfredo Bufren, indo pra nossa sessão espírito-intelectual do Alto da XV - a mesma que a Neila frequenta - e eu ví uma garota trabalhando na porta de um hotel e essa conversando com um porteiro enquanto aguardavam, ambos, um cliente. Estavam os dois simplesmente conversando, provavelmente conversavam sobre a novela e ele lhe contava que a esposa fez frango assado no domingo – e ela em silêncio sonhava com o domingo que seria esposa e faria frango assado para alguém, a quem ela amaria e a quem seriam felizes para sempre apenas fazendo frango assado e ele sem camisa lavando o Gol em garagem aberta com dois ou três correndo em volta se sujando, jogando barro, e ela tendo a quem gritar! Nesse silêncio ela apenas confirmava o “sim” com a cabeça, ao companheiro de trabalho, e provavelmente nem ouvindo as outras palavras que lhe eram ditas e provavelmente nem via a face de quem lhe conduzia agora à sua baia, e talvez nem estivesse lá, mas pensando ainda no frango assado e quem sabe deixando passar naquele instante o carro no sol em garagem descoberta (com dois ou três que correriam por lá e que também estariam descolorindo). Tudo, tudo, tudo descolorindo. Sabe o que eu penso? Eu penso que quando se pensa no que é tendência, e que quando se busca algo que alguém tá pensando, então deixamos de pensar e deixamos passar por nós coisas que realmente importam e que poderiam ser verdadeiras. E penso também que o curitibano busca noutros centros o centro da sua rotação. Eu continuo esperando pelos meus amigos que foram embora. Às vezes eu não penso em nada também; isso me é tão difícil! O parar e se concentrar no aqui e no agora, e não permitir que nada disso me tire do agora. Nem o Sudoeste do Paraná, nem essa última sessão, nem que essa última sessão acontece a todo momento e que sempre temos últimas sessões que nunca mais acontecerão. Essa é a última sessão. Essa é a última sessão, meu povo. Essa é a última sessão, meu irmão. Corram, corram todos, venham! Essa é a última sessão! Corram, corram todos, fujam! Essa é a última sessão! Continua..."

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