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MANIFESTO DA MULHER E DA CAMISETA (por Alexandre Linhares)

Atualizado: 6 de mar.

A amiga que eu conheci um dia e ficou morando pra sempre dentro do meu coração - a quem escrevo textos e me apaixono quando ela interpreta minhas palavras - a Maite Schneider é muito importante no meu processo de amadurecimento e a única ponte que dá acesso a quem eu já fui um dia e que tem passagem livre na ala V.I.P. de quem eu me tornei hoje. Por amá-la tanto, tenho certeza que há muito de mim dentro dela também.



Em 02 de maio de 2009, a Maite interpretou meu "Manifesto da Mulher e da Camiseta" no desfile de "Heroínas Aladas" enquanto amarrava as pontas soltas de sua roupa e modelava aquele vestido no corpo, no texto onde também contribuiu com a frase que se integrou na história pela porosidade com que as palavras se assimilaram ao contexto. Foi um texto escrito pra ela, como o Almodóvar escreve pra Rossy de Palma ou pra Carmen Maura. Não foi o primeiro texto interpretado pela atriz, mas a estreia na passarela abrindo espaço pra outras tantas participações e protagonismos da estrela na minha vida.


Vendo sua "automodelagem" da peça no corpo me remeto à "deus", coleção de 2010 onde a Maite foi a estrela e as peças remeteram ao cordão umbilical, à teoria das cordas e ao livre-arbítrio com que se modela a vida. Conecto a imagem da interpretação da Maite à criação posterior.


A Maite é uma Heroína e não se integrou a nenhuma coleção depois de nossa transição pra H-AL. Ela abriu o desfile da marca antes do colapso tempo-espaço que levou a Heroína pra lá e só por isso ela retorna agora, junto daquela que passou tanto tempo fora e estamos nos reconhecendo neste 2024 que promete emoções emancipatórias. O defile foi "O rei está nu", naquele 13 de maio em que Dilma Rousseff foi afastada da Presidência da República. O mundo andou girando desde então.


Fica o texto integral do Manifesto da Mulher e da Camiseta na sequência:


MANIFESTO DA MULHER E DA CAMISETA


O que eu queria deixar claro, e questionar, e salientar, e acima de tudo lembrar, é o que existe de mais íntimo entre uma peça de roupa e uma pessoa. Seja ela o que for, sinta ela o que sentir, viva ela o que viver. Ela é, ela sente, ela vive. Só ela e apenas ela. Como ela é, como ela se sente, como ela se veste.

O que eu visto representa em mim o que eu sou, o que eu acredito, o que eu sinto.

Me pergunto: Até quando?

E eu me respondo: Até quando eu precise ser.

A minha fome, a minha sede, os meus desejos estão no meu decote. Na minha fenda. Na minha face. Até na minha cabeça e nas minhas orelhas e na minha boca e em mim e em você.

O nosso orgulho, a nossa sensibilidade, o nosso corpo. O nosso orgulho e o nosso corpo.

Embora não me sinta "adequada", uma camiseta sempre vai bem. Ela é uma parede branca, uma cara lavada, um cabelo acordado, que recebe o que quer que se coloque nela. Ideologias, partidos políticos, candidatos políticos, a minha política, a sua raiva, a piada dele, o amor da vida dela. A campanha do leito materno, do câncer de mama, da mulher. Uma camiseta entende uma mulher, uma camiseta é uma arma na mão do homem.

Quando eu visto uma camiseta eu rejeito a sua realidade e a substituo pela minha.

A moda permite que você se enquadre, que você se camufle, que você se esconda e que você se adapte.

A roupa que você veste abre portas. Faz com que você se sinta admirada, faz com que você se sinta amada, faz com que você se sinta desejada.

Va aonde você quiser ir.

Faça o que você quiser fazer.

Agora, eu só quero voar___


Alexandre Linhares é um estilista, eco-designer, performer, video-maker e figurinista curitibano, considerado "a grata revelação da moda de nosso tempo" pela jornalista Adélia Maria Lopes. É visto como uma referência no pensar moda e um exemplo de trabalho genuinamente autoral.

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