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Manifesto da mulher e da camiseta

 

O que eu visto representa em mim o que eu sou, o que eu acredito, o que eu sinto. Me pergunto: Até quando? E eu me respondo: Até quando eu precise ser. A minha fome, a minha sede, os meus desejos estão no meu decote. Na minha fenda. Na minha face. Até na minha cabeça e nas minhas orelhas e na minha boca e em mim e em você. O nosso orgulho, a nossa sensibilidade, o nosso corpo. O nosso orgulho e o nosso corpo. Embora não me sinta "adequada", uma camiseta sempre vai bem. Ela é uma parede branca, uma cara lavada, um cabelo acordado, que recebe o que quer que se coloque nela. Ideologias, partidos políticos, candidatos políticos, a minha política, a sua raiva, a piada dele, o amor da vida dela. A campanha do leito materno, do câncer de mama, da mulher.Uma camiseta entende uma mulher, uma camiseta é uma arma na mão do homem. Quando eu visto uma camiseta eu rejeito a sua realidade e a substituo pela minha. A moda permite que você se enquadre, que você se camufle, que você se esconda e que você se adapte. A roupa que você veste abre portas. Faz com que você se sinta admirada, faz com que você se sinta amada, faz com que você se sinta desejada. Va aonde você quiser ir. Faça o que você quiser fazer. Agora, eu só quero voar_______

Um questionamento sobre o "não ter voz", diferente de não ter o que dizer. Tudo começa com a camiseta sem mensagem no peito, trazida direto do texto "manifesto da mulher e da camiseta" interpretado por Maite Schneider na abertura do desfile de "Heroínas Aladas" (2009). A figura do casal é colocada mais uma vez frente à frente, em oposição, integrando-se, completando o todo. A imagem é contemplativa, estática. A inexpressividade é recorrente quando o Alexandre se doa em corpo no processo de uma coleção. No além-pano, Thifany registrou em vídeo o retirar e colocar de peças do Alexandre, sentado num banco da Rua XV de Novembro. A extensão do movimento foi repetida com as personagens alternadas na feira de domingo da Praça 29 de Março. "Eu estou usando a mesma camiseta, com o mesmo cheiro e com o mesmo buraco nulo que não diz nada. Eu estou usando a mesma camiseta que você usou ontem e que tinha a minha cara de palhaço estampada, em silêncio, que não dizia nada. O espaço vazio não diz nada (não por falta de assunto, mas) por falta de voz. É pano demais sem sentido, é cor que só segue a cor que eu sei de cor. Eu sou o palhaço mudo na sua camiseta vazia que não diz nada. (8 x) Se eu segurar de um lado a faixa branca e você segurar do outro, conseguiremos parar o trânsito e bloquear um cruzamento com uma faixa que não dirá nada. Nós gritaremos bem alto até perder a voz e não teremos dito nada. Causaremos tumulto para dizer nada. Eu posso sentar no computador e dar com os dedos no teclado como num piano. Por horas. Posso ritmar, tocar, até quebrar tudo, o teclado partir e os dedos romperem-se em sangue. Na tela, não terei escrito nada. Eu me sinto fedendo, atado. Uso por mais um dia a mesma camiseta."

estrelando: Alexandre Linhares e Thifany F. / beleza: Thifany F. / fotos: Alexandre Linhares e Thifany F. / vídeo e textos: Alexandre Linhares / câmera: Alexandre Linhares e Thifany F.  / o ambiente é a rua XV de novembro quando o Alexandre, e a Praça 29 de março quando a Thifany em cena.